quarta-feira, 24 de junho de 2009

Divina ironia...


Após algumas "eternidades" de completo ócio e tédio, uma existência resolve criar todo um universo em somente sete dias... Porque tamanha pressa? Talvez seja compatível com o "onitédio"... ou a criação é algo rápido mesmo tipo microondas. Tal existência além de criadora, é também onisciente, onipotente e onipresente, além de perfeito (é claro!).
Sua (dita) "maior" criação é o ser humano, uma criatura caótica, impressionável e meio tosca... em resumo, imperfeito. Mas como um ser perfeito pode criar algo imperfeito e ainda dizer que é a sua imagem e semelhança? Ok, o ser humano deve aprender e evoluir... utilizar do seu livre arbítrio para crescer... Fazer suas próprias escolhas e arcar com os resultados (ainda que reclamando até das quinas das esferas...).
Viva o livre arbítrio! Mas como existe isso? O criador não é onisciente? Se cada resultado é conhecido não existem escolhas reais... tudo já está decidido, no máximo se escolhe dentre as opções de trilhos existentes... A onisciência extermina o livre arbítrio. Outro ponto interessante é a possibilidade de escolha segundo alguns ferrenhos religiosos, ou se está no caminho de "deus" (que é o deles, obviamente) ou se está condenado... não vamos esquecer que "deus é amor!"
Lembremos que a existência criadora também ama suas criações, ainda que permita que tudo quanto é desastre aconteça... afinal, algo tem de matar o tédio... E se tal existência é a única fonte de criação e é somente "do bem" porque existe o mal? Porque ele foi criado? Como algo 100% bom pode criar o mau? Uma leitura do "grande fax celeste" mostra o orgulho da mais bela criatura (lembrando que orgulho é classificado como pecado capital e vaidade também o é... ) tão perfeito que ficou mau, por ciúme das criaturinhas tão amadas e imperfeitas que o divino se divertia matando... Aceitando isso, como o "primeiro caído" pode criar as mentiras e o mal que lhe é atribuído? Ele não descende de algo tão bom, perfeito e puro? Que por acaso é também a única fonte criadora?
A suprema fonte de tudo (menos do mal, que não se sabe como veio parar no meio da história) viu que sua tão amada criação tinha feito tantas besteiras que tudo estava meio podre... ok, mata-se um monte de gente e começamos de novo... Mas para que fazer em 7 dias o que você pode fazer em 40 dias e noites bem molhados... afinal é uma faxina, demora pra ser bem feita... Deu trabalho para corrigir o (erro?) da melhor criação da perfeição, e depois de um tempo não é que deu problema de novo? E ao que parece de forma pior, a ponto da criação mandar seu filho para resolver, mas se todas a criaturas vieram da mesma fonte e são amadas igualmente porque somente uma é tratada com tamanha distinção? E como uma fonte única e monoteísta de criação pode ser formada por uma trindade?
Mas seja uma boa pessoa, não cometa pecados... não coma por prazer, é gula (para que paladar?)! Não transe gostoso, (ainda que sejamos dotados do orgasmo) é luxúria! Deve-se viver uma vida simples mas dotada de significado! Imitar o filho preferido (ainda que todos sejam amados igualmente) , não ter trabalho nem formação aos trinta anos de idade, andar sempre com amigos passeando por aí e aproveitando do pão e do vinho. Não esqueça de que as prostitutas são seres importantes! E que mãe é sagrada! Não faz nem filhos com o marido, nem mesmo depois de anos de matrimônio.
Afinal qualquer esforço vale a pena para se chegar ao paraíso! Um lugar cheio de anjinhos (seres andróginos assexuados, com asas penosas e espadas de fogo), nuvens (legal!), onde não há nenhuma necessidade e pode-se passar toda a eternidade louvando (elogiando, exaltando e achando o máximo! Cuidado que orgulho é pecado!) a fonte criadora! Fantástico! Vale cada centavo suado que pagou o carro, o rolex e a casa do pastor! Cada moeda que construiu o Vaticano e sua lindas igrejas, é tão lindo ver o voto de pobreza repleto de ouro e veludo dos cardeais, a simplicidade de montar um templo gigantesco de mármore caríssimo... afinal congregar com a natureza perfeita criada pela grande existência é algo simplório, devemos criar uma caixa de pedra cheia de requintes que é mais sagrada que as criações divinas!
Melhor que ir para o inferno virar churrasco, ainda que toda a carne tenha ficado na terra... Sentir a eternidade de dor porque aquele último doce da bandeja estava além da saciedade e porque você passou batom para ir o shopping. Não se preocupe, Deus te ama!


Deus é criador e dono de tudo, mas uma graninha sempre vai bem! Ele te ama, mas qualquer besteira que você fizer (ser imperfeito não é desculpa!) te manda para o inferno!

terça-feira, 23 de junho de 2009

Bom dia, mau dia...




"Hoje foi um dia péssimo!
A maldita obra em frente me acordou com sua sinfonia de martelos e tratores, mais uma vez tive de saborear meu comprimidos e minha insossa dieta de fibras. Andei num passo rápido na rua, o medo de levarem minha belas pérolas ou minha bolsa era grande, mas me distraí num olhar rápido a uma vitrine e trombei com um mendigo mal-cheiroso. Que nojo! Sai correndo (tanto quanto a artrose e os saltos me permitiam) e fui até o salão para meu cuidados rotineiros. O almoço fora tão sem-graça quanto o café, maldita hipertensão! A tarde seguiu tediosa com todas aquelas conversas cansativas das senhoras do clube e dormi as custa do meu santo comprimido de bromazepan, após outra refeição ruim. Um dia chato e quente, uma noite de doer as juntas, de tão fria."

"Hoje foi um dia triste...
Começou quando minha mãe me arrancou das minhas cobertas quentinhas para aquela manhã fria, me animei no café, engolindo minhas torradas amanteigadas com voracidade. Peguei minha bicicleta e rumei para o colégio, não podia me atrasar de novo, vi no caminho uma senhora trombar com um velho mendigo, ri comigo, em poucos minutos cheguei. As horas demoravam a passar, aulas cansativas, tanto assunto... No almoço, ria com meus colegas numa mesa de lanchonete, algo tirou meu sorriso muito rápido, chamando a atenção de todos. Do outro lado da rua, um mendigo engolia restos numa lata de lixo, nos fundos de uma biboca suja. Me doía o coração vê-lo procurar alimento no lixo, enquanto eu podia aproveitar um lanche tão gostoso e despreocupado. Aquilo me ficou na mente até o final do dia e me trouxe umas poucas lágrimas antes de dormir."

"Hoje foi mais um dia... igual...
Bocejei dentro do ônibus lotado, ainda era uma fria madrugada, meu casaco já pedia demissão e a pele estava arrepiada, assumi meu posto bem cedo e abri o portão. Os clientes iam em viam e o cheiro do café, meu companheiro, rondava por todo o local. Eu me perguntava como as pessoas podiam pagar os preços altos da tabela por coisas tão simples, como um café expresso ou um sanduíche e jogar fora metade, por pura pressa. Mais uma vez vi aquele velho mendigo observar pela vitrine e seu olhar lhe denunciava a fome, fiz-lhe um sinal para que fosse para o beco ao lado da loja. Lhe dei uns bolinhos velhos, afinal já não serviam para vender. Ele os comia com gosto, saboreando cada pedaço, como se fosse um banquete. Me agradeceu com um sorriso e um gracejo e se foi, me deixando com um riso bobo na face. O restante do dia foi cansativo, à noite minhas pernas reclamavam, mas a caminhada valia a pena, cheguei bem na hora, a professora me cumprimentou à porta da sala e foi uma boa aula. Dormi o sono dos justos quando finalmente cheguei em casa. Exausto, como sempre..."

"Hoje foi um dia interessante...
Abri cedo minha loja, os clientes estavam animados para as compras, o tilintar da caixa registradora era animador. No meio da tarde o movimento diminuiu e fui à porta averiguar, havia um círculo de pessoas, deixei um funcionário tomando conta da loja e fui matar minha curiosidade. Havia um senhor maltrapilho, fazendo um pequeno show, com anedotas e cambalhotas, de quando em quando ele pausa passava seu surrado chapéu para que lhe dessem algum trocado. Me diverti com ele, os negócios eram promissores e lhe arrumei algumas notas miúdas. O seu sorriso me serviu de agradecimento e voltei ao trabalho. Ao final do dia uma surpresa, o velho artista de rua estava ao balcão comprando uns pães de queijo, ri-me dele e lhe agradeci com um sorriso, ao qual me foi retribuído com um maior ainda. Dormi feliz, naquela noite."

"Hoje foi um dia bom!
Acordei com a luz do sol no meu rosto, já esquentando um início de dia após um noite tão fria. Caminhei pela rua olhando as pessoas atarefadas, andando de um lado a outro, sempre ocupadas. Ao atravessar a praça sinto a fome rugir e vejo uma boa refeição a minha espera. Degusto meu dejejum em um pequeno café, aproveitando os doces bolinhos de aveia e observando o fervilhar da cidade grande, os grandes arranha-céus espelhados e carros coloridos zunindo e buzinando.
Satisfeito, rumo em direção do centro para ganhar meu sustento, não é longe e caminho para aproveitar o sol. Num susto, trombo com uma senhora arrumada. Ela se assusta, mas logo se recompõe e continua num passo rápido, fingindo que nada houve. Em minutos chego ao meu local e luto pelo pão por toda a manhã. Ao sol quente do meio-dia, procuro uma sombra e meu almoço, um salada leve e bem colorida, um sanduíche de mortadela e fico satisfeito, compro uma lata de refrigerante e volto ao serviço. A tarde é quente, luto pelo meu sustento e ao final do dia já cansando e sentindo a primeira brisa da noite, retorno para casa. Encontro ótimos paezinhos de queijo numa padaria vizinha e durmo bem enrolado, satisfeito... é inverno e a noite será fria. Mas foi um bom dia!"