segunda-feira, 27 de julho de 2009

Uivos do Concreto - CAPÍTULO 1 – DEPOIS DA TRAGÉDIA...

Acabei amadurecendo forçadamente mais cedo quando perdi meus pais. Tinha acabado de voltar do colégio, vi a porta destruída, entrei correndo, meu coração não cabia no peito, a casa estava revirada, tudo destruído, as paredes pichadas e ao entrar no quarto os vi... Aqueles me deram a vida, que me mostraram o mundo, que me tinham no coração, agora não passavam de corpos ensangüentados e sem vida. Agarrado as lembranças e em completo desespero os abracei forte, como se pudessem estar apenas dormindo, era tudo o que queria, que nada daquilo fosse real. Foi então que vi gravado na parede: “Voltem para o inferno aberrações! O mundo é dos filhos de Eva!” – A raiva foi tão grande que puder sentir a chama queimar dentro de mim, nada mais era importante, ele deviam pagar!
Eu já não era eu mesmo, podia sentir chamas pulsarem por baixo dos pêlos e da pele, só tinha em mente a sede de vingança. Foi quando aquele cheiro chegou ao meu faro, era cheiro de humano, suor e bebida barata, só poderiam ser eles! Fui seguindo pela casa, farejando qualquer vestígio, quando me vi estava numa área de depósitos nos limites da cidade e já anoitecera. O cheiro estava mais forte, fui seguindo até ouvir um barulho, me escondi num beco próximo e os ouvi passar... Vangloriavam-se, riam, estavam bêbados, o mal-cheiro infestou minhas narinas e fez o ódio queimar mais forte. Os segui silenciosamente até um dos galpões, haviam pichado na porta enferrujada, o mesmo símbolo que nas paredes da minha casa. Entraram no galpão. Segui até uma janela pequena e suja para ver o que faziam lá, gargalhavam e bebiam, eram uns desgraçados, como se matar fosse motivo de festa.
Não sei quanto tempo aguardei uma oportunidade, minutos, horas... Mas após muita algazarra eles pararam, em pouco tempo já dormiam bêbados em velhos colchões que estavam jogados no chão. Foi minha oportunidade, entrei no galpão sem fazer barulho; o cheiro pútrido do local, o fedor do grupo sujo e bêbado, a dor da perda marcada a ferro no meu coração... Quando percebi, estava amanhecendo, o sol entrava pelas janelas sujas e pelos buracos do teto, eu ainda estava no galpão e olhei em volta, já não havia mais vidas naquele local, apenas sangue e morte. O gosto em minha boca me enojava, o cheiro no ar revirava meu estômago, percebi que havia ido longe demais.
Corri para o que restou de minha casa como um louco, a culpa me doía, eu havia me transformado num monstro! Ao chegar, procurei por algumas roupas, troquei-me e fugi ao único local seguro que me restava a casa de meu amigo. Bati-lhe a janela do quarto e ele me deixou entrar, contei aos soluços os fatos, mas não tive coragem de falar do meu erro. Depois de me ouvir ele simplesmente me abraçou e então, só consegui chorar tudo o que estava engasgado dentro de mim. Não sei por quanto tempo ficamos daquele jeito, mas depois daquele momento passei a ver meu amigo de outra forma.
Os pais do Luca sempre me trataram bem e quando souberam da minha tragédia, me convenceram a morar com eles. Agora eu tinha um amigo-irmão. Após algumas semanas nossa amizade e intimidade foram crescendo, era natural, dois garotos de 15/16 anos dividirem dúvidas e descobertas da idade. Um dia, eu tomava banho, esqueci a porta destrancada e ele entrou. Nunca nos vimos nus, ele simplesmente parou e ficou me olhando de cima a baixo, meus pêlos azul-prateado, meu corpo trabalhado pelos esportes do colégio, ele me admirava como se eu fosse uma obra de arte. Tremi e se pudesse teria ficado vermelho, perguntei o que ele queria. Saindo do transe, percebeu a situação, se ruborizou e correu pra fora do banheiro. Não tocou no assunto o resto do dia, mas eu não consegui tirar aquela cena da minha mente.
À noite, enquanto estávamos deitados esperando o sono surgir, ele sem-graça e gaguejando pediu desculpas pelo ocorrido e eu ri dele. No momento seguinte estávamos lutando sobre minha cama, ele havia pulado sobre mim e tentava me imobilizar, mas consegui virá-lo e prendê-lo, estávamos ofegantes com os rostos muito próximos, olhei em seus olhos e ele nos meus. Demos nosso primeiro beijo.

Nunca me esquecerei, aqueles lábios quentes, macios, o cheiro que ele exalava, o arrepio que senti, o gosto da boca do Luca, o calor do corpo dele... Éramos um só.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Culturalmente discutível...


Costumes dos mais diversos estão enraizados em todos os povos, heranças de séculos de vivências e acontecimentos. Não se trata somente de certas vestimentas estranhas e comidas coloridas, desde o padrão de evolução da língua até o formato de raciocínio dos indivíduos em geral. Cada nação, povo, território, vila e até instituição ou classe profissional tem seu conjunto de regras e costumes. Não se trata de um caderno de leis, mas certos 'protocolos' subentendidos.
É complicado e até certo ponto desrespeitoso avaliar e comparar culturas, aos olhos de quem não faz parte do conjunto. Como compreender um costume que não é familiar ou nunca lhe foi mostrado o verdadeiro valor? Não é simplesmente uma questão de preferência, mas a noção de que ainda que não se entenda o verdadeiro valor deve-se ter respeito. A tentativa de entender é válida, mas não é nada fácil absorver algo realmente discrepante de sua própria realidade.
Direito a respeito toda cultura deve ter, todavia o que pensar quando é algo que não somente fere à próprias concepções de cada um como machuca e até mata seres vivos? A exemplo do vídeo acima, questionar qual a nobreza e beleza de se matar animais? Como pode se um esporte a matança violenta? Ultrapassados os limites, avaliar que direito tem um povo para torturar e matar animais? Brutalização e banalização do sofrimento é um espetáculo para quais olhos?
Outro ponto interessante é a divisão social de alguns povos, as castas indianas ainda que tenham sido extintas juridicamente persistem dentro da sociedade indiana. Uma interpretação de antigos costumes que prendem uma faixa inteira da população a um estrato de inferioridade e abuso contínuo, sem qualquer chance de ascensão independente de sua competência ou empenho. Os Dalits sofrem violência e abuso contínuos, lhes é negado direitos humanos dos mais básicos, como água potável! Sofrem sem o mínimo direito a justiça.
Ou o absurdo dentro de muitas nações islâmicas, a inferiorização da mulher, onde o abuso físico e psicológico extrapola os limites da compreensão. Ainda que afirmem, não há trechos no Corão que justifique certas práticas, o véu é uma forma cultural de preservar a integridade e o mistério feminino, mas a burca é uma humilhação. Obrigar milhares de mulheres a se esconder sob um pesado pano escuro no calor do deserto chega a ser uma tortura pública! Sem contar os estupros, espancamentos, torturas, humilhação, qual o sentido de tudo isso? O Corão não traz versos sobre a importância da mulher e a obrigação do homem em protegê-la? A cultura é antiga mas mutável, as mulheres já tiveram muita importância no auge do império árabe.

Diferenças à parte, a vida deveria ser valorizada globalmente...





terça-feira, 14 de julho de 2009

Uivos do Concreto - Prólogo


O ano é 2132, já faz mais de trinta anos que a guerra começou, não uma com mísseis ou bombas, é algo mais sutil, mas não menos feio. Às vezes gostaria que a moda Lycan nunca tivesse existido, mas me dou conta de que sequer teria nascido se não fosse por isso. Ah, sim! Não sou humano, pelo menos não 100%, sou um lycan classe três, ou seja, nascido de um casal de lycans. Talvez meus pais não tivessem me feito se soubessem o que o futuro guardaria, mas já é meio tarde para pensar nisso.
Na historia da humanidade houve muitas grandes idéias e também muitas loucuras, muitas modas foram obras de arte e outras causaram apenas revolta. Mas nada trouxe tanto problema quanto a manipulação genética. A possibilidade de alterar os genes foi um grande avanço para a ciência, várias doenças simplesmente foram erradicadas, muitos casais sequer precisaram se preocupar com a saúde dos filhos que iriam nascer, esta já estava garantida. O problema, todavia, veio com a banalização do processo. Porque parar com o humano comum se você pode melhorá-lo? Assim começou... O resultado? É ainda pior que o antigo racismo, virou uma disputa entre espécies.
Quando nasci, entrei no meio de um campo de batalha silencioso. Se você acha que usar aparelho ou ter sardas tornou sua infância difícil, é porque não foi chamado de “Totó” na escola (esqueci de dizer, sou um Canis lupus sapiens, algo que antigamente chamavam de lobisomem). Aturei por toda vida apelidos e desprezo, para minha sorte (talvez por medo) nunca chegaram a me agredir.
Tive minha primeira briga na adolescência, mas não fui à causa, vi um grupo espancando um rapaz e fui tentar ajudá-lo. Avancei sobre o primeiro, foi algo instintivo, dei-lhe um soco forte na cara e ele desmaiou. Percebi que mais dois vinham, já haviam esquecido a vítima, partiram pra cima de mim. Desferi uns socos em estômagos e levei alguns também, mas eu não sentia a dor de tão forte a adrenalina. Foi quando algo queimou por dentro, e avancei mordendo no braço de um dos valentões, não foi nada tão profundo, mas o sangue os fez correr, carregando seu amigo desfalecido nas costas.
Quando ajudei o rapaz a se levantar, ele me agradeceu com um abraço apertado e me olhou nos olhos tão fundo que estranhei. Nunca um humano tinha me demonstrado carinho, ele parecia não se importar com as diferenças, sequer trocamos uma palavra e ele seguiu seu caminho.
Acabamos por nos tornar amigos mais tarde...