
Acabei amadurecendo forçadamente mais cedo quando perdi meus pais. Tinha acabado de voltar do colégio, vi a porta destruída, entrei correndo, meu coração não cabia no peito, a casa estava revirada, tudo destruído, as paredes pichadas e ao entrar no quarto os vi... Aqueles me deram a vida, que me mostraram o mundo, que me tinham no coração, agora não passavam de corpos ensangüentados e sem vida. Agarrado as lembranças e em completo desespero os abracei forte, como se pudessem estar apenas dormindo, era tudo o que queria, que nada daquilo fosse real. Foi então que vi gravado na parede: “Voltem para o inferno aberrações! O mundo é dos filhos de Eva!” – A raiva foi tão grande que puder sentir a chama queimar dentro de mim, nada mais era importante, ele deviam pagar!
Eu já não era eu mesmo, podia sentir chamas pulsarem por baixo dos pêlos e da pele, só tinha em mente a sede de vingança. Foi quando aquele cheiro chegou ao meu faro, era cheiro de humano, suor e bebida barata, só poderiam ser eles! Fui seguindo pela casa, farejando qualquer vestígio, quando me vi estava numa área de depósitos nos limites da cidade e já anoitecera. O cheiro estava mais forte, fui seguindo até ouvir um barulho, me escondi num beco próximo e os ouvi passar... Vangloriavam-se, riam, estavam bêbados, o mal-cheiro infestou minhas narinas e fez o ódio queimar mais forte. Os segui silenciosamente até um dos galpões, haviam pichado na porta enferrujada, o mesmo símbolo que nas paredes da minha casa. Entraram no galpão. Segui até uma janela pequena e suja para ver o que faziam lá, gargalhavam e bebiam, eram uns desgraçados, como se matar fosse motivo de festa.
Não sei quanto tempo aguardei uma oportunidade, minutos, horas... Mas após muita algazarra eles pararam, em pouco tempo já dormiam bêbados em velhos colchões que estavam jogados no chão. Foi minha oportunidade, entrei no galpão sem fazer barulho; o cheiro pútrido do local, o fedor do grupo sujo e bêbado, a dor da perda marcada a ferro no meu coração... Quando percebi, estava amanhecendo, o sol entrava pelas janelas sujas e pelos buracos do teto, eu ainda estava no galpão e olhei em volta, já não havia mais vidas naquele local, apenas sangue e morte. O gosto em minha boca me enojava, o cheiro no ar revirava meu estômago, percebi que havia ido longe demais.
Corri para o que restou de minha casa como um louco, a culpa me doía, eu havia me transformado num monstro! Ao chegar, procurei por algumas roupas, troquei-me e fugi ao único local seguro que me restava a casa de meu amigo. Bati-lhe a janela do quarto e ele me deixou entrar, contei aos soluços os fatos, mas não tive coragem de falar do meu erro. Depois de me ouvir ele simplesmente me abraçou e então, só consegui chorar tudo o que estava engasgado dentro de mim. Não sei por quanto tempo ficamos daquele jeito, mas depois daquele momento passei a ver meu amigo de outra forma.
Os pais do Luca sempre me trataram bem e quando souberam da minha tragédia, me convenceram a morar com eles. Agora eu tinha um amigo-irmão. Após algumas semanas nossa amizade e intimidade foram crescendo, era natural, dois garotos de 15/16 anos dividirem dúvidas e descobertas da idade. Um dia, eu tomava banho, esqueci a porta destrancada e ele entrou. Nunca nos vimos nus, ele simplesmente parou e ficou me olhando de cima a baixo, meus pêlos azul-prateado, meu corpo trabalhado pelos esportes do colégio, ele me admirava como se eu fosse uma obra de arte. Tremi e se pudesse teria ficado vermelho, perguntei o que ele queria. Saindo do transe, percebeu a situação, se ruborizou e correu pra fora do banheiro. Não tocou no assunto o resto do dia, mas eu não consegui tirar aquela cena da minha mente.
À noite, enquanto estávamos deitados esperando o sono surgir, ele sem-graça e gaguejando pediu desculpas pelo ocorrido e eu ri dele. No momento seguinte estávamos lutando sobre minha cama, ele havia pulado sobre mim e tentava me imobilizar, mas consegui virá-lo e prendê-lo, estávamos ofegantes com os rostos muito próximos, olhei em seus olhos e ele nos meus. Demos nosso primeiro beijo.

Nunca me esquecerei, aqueles lábios quentes, macios, o cheiro que ele exalava, o arrepio que senti, o gosto da boca do Luca, o calor do corpo dele... Éramos um só.
Eu já não era eu mesmo, podia sentir chamas pulsarem por baixo dos pêlos e da pele, só tinha em mente a sede de vingança. Foi quando aquele cheiro chegou ao meu faro, era cheiro de humano, suor e bebida barata, só poderiam ser eles! Fui seguindo pela casa, farejando qualquer vestígio, quando me vi estava numa área de depósitos nos limites da cidade e já anoitecera. O cheiro estava mais forte, fui seguindo até ouvir um barulho, me escondi num beco próximo e os ouvi passar... Vangloriavam-se, riam, estavam bêbados, o mal-cheiro infestou minhas narinas e fez o ódio queimar mais forte. Os segui silenciosamente até um dos galpões, haviam pichado na porta enferrujada, o mesmo símbolo que nas paredes da minha casa. Entraram no galpão. Segui até uma janela pequena e suja para ver o que faziam lá, gargalhavam e bebiam, eram uns desgraçados, como se matar fosse motivo de festa.
Não sei quanto tempo aguardei uma oportunidade, minutos, horas... Mas após muita algazarra eles pararam, em pouco tempo já dormiam bêbados em velhos colchões que estavam jogados no chão. Foi minha oportunidade, entrei no galpão sem fazer barulho; o cheiro pútrido do local, o fedor do grupo sujo e bêbado, a dor da perda marcada a ferro no meu coração... Quando percebi, estava amanhecendo, o sol entrava pelas janelas sujas e pelos buracos do teto, eu ainda estava no galpão e olhei em volta, já não havia mais vidas naquele local, apenas sangue e morte. O gosto em minha boca me enojava, o cheiro no ar revirava meu estômago, percebi que havia ido longe demais.
Corri para o que restou de minha casa como um louco, a culpa me doía, eu havia me transformado num monstro! Ao chegar, procurei por algumas roupas, troquei-me e fugi ao único local seguro que me restava a casa de meu amigo. Bati-lhe a janela do quarto e ele me deixou entrar, contei aos soluços os fatos, mas não tive coragem de falar do meu erro. Depois de me ouvir ele simplesmente me abraçou e então, só consegui chorar tudo o que estava engasgado dentro de mim. Não sei por quanto tempo ficamos daquele jeito, mas depois daquele momento passei a ver meu amigo de outra forma.
Os pais do Luca sempre me trataram bem e quando souberam da minha tragédia, me convenceram a morar com eles. Agora eu tinha um amigo-irmão. Após algumas semanas nossa amizade e intimidade foram crescendo, era natural, dois garotos de 15/16 anos dividirem dúvidas e descobertas da idade. Um dia, eu tomava banho, esqueci a porta destrancada e ele entrou. Nunca nos vimos nus, ele simplesmente parou e ficou me olhando de cima a baixo, meus pêlos azul-prateado, meu corpo trabalhado pelos esportes do colégio, ele me admirava como se eu fosse uma obra de arte. Tremi e se pudesse teria ficado vermelho, perguntei o que ele queria. Saindo do transe, percebeu a situação, se ruborizou e correu pra fora do banheiro. Não tocou no assunto o resto do dia, mas eu não consegui tirar aquela cena da minha mente.
À noite, enquanto estávamos deitados esperando o sono surgir, ele sem-graça e gaguejando pediu desculpas pelo ocorrido e eu ri dele. No momento seguinte estávamos lutando sobre minha cama, ele havia pulado sobre mim e tentava me imobilizar, mas consegui virá-lo e prendê-lo, estávamos ofegantes com os rostos muito próximos, olhei em seus olhos e ele nos meus. Demos nosso primeiro beijo.
Nunca me esquecerei, aqueles lábios quentes, macios, o cheiro que ele exalava, o arrepio que senti, o gosto da boca do Luca, o calor do corpo dele... Éramos um só.
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