segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Cores que contam histórias...



Vermelho: E ele levantou, corria por sua vida, a perna direita queimava, um gosto amargo na boa, o medo queimando suas veias. Correu engolindo a dor, guardando cada grito para um momento mais oportuno... havia uma ruína velha por perto, se tornou seu esconderijo, sua fortaleza. Respirava arfante, não havia muito em volta, apenas mato e lixo, o fedor de urina velha fazia o nariz doer.
Silêncio, só conseguia ouvir o coração em tambor, forte, acelerado, como se batesse dentro da cabeça, latejante. Abafava sua respiração, apurava os ouvidos tanto quanto podia, fingia não sentir o calor escorrer por sua perna ferida. Lembrava do estrondo, do medo, da dor em fogo; até que sua lembranças foram interrompidas. Haviam chegado, o que pareceram horas eram apenas minutos breves... a ansiedade amargava cada suspiro, era doloroso até pensar... se ele o pudesse fazer.
O mundo rodou, a realidade distorceu, o corpo se contorceu tentando sobreviver, cada sentido foi enfraquecendo, até que tudo tomou o tom vermelho...

Verde: Acordava lentamente, sentindo cada músculo relaxado, o mundo parecia até mais leve, fluido... se levantou, olhou em volta, tudo parecia tranqüilo como sempre. Até o viu, jogado no chão, tremendo, ferido, sangrando. Levantou rápido, tonto de susto e da velocidade, foi observar o jovem caído, respirando fraco, gemente, buscou acordá-lo, o sacudiu, tudo inútil... correu por ajuda, buscou o telefone mais próximo, a atendente pareceu não crer de início, mas uma ambulância foi enviada. Correu de volta ao jovem, viu a perna sangrenta, suja, tirou sua faixa verde da cabeça e amarrou no membro para parar o sangramento. Tinha visto como fazer num filme, anos atrás.
O socorro veio, foram rápido, o pegaram e levaram para longe, numa maca... a última coisa que viu foi sua faixa verde ser tomada por vermelho...


Branco: Acordou por um momento, luz forte no rosto, vultos brancos o cercavam, movimentos rápidos, palavras incompreensíveis, não podia se mover, a perna ainda latejava, até que desistiu e fechou os olhos outra vez. Algum tempo depois acordou novamente, a cabeça latejava e a costas doíam, não sentia mais a perna doer, haviam lhe ajudado? Estava ainda tonto e sonolento, olhou um pouco aqueles vultos branco que circulavam e dormiu outra vez cercado por aqueles vultos sem cor.


Laranja: Às vezes sentia pena deles, noutras indiferenças e em algumas até um pouco de raiva, cada um tinha sua história, umas sofridas outras de imprudência. Sabia um pouco de cada, mesmo os que passavam pouco tempo sob seu cuidados, como era cuidadosa e detalhista. Sabia bem os horários de cada um de memória, os cumpria com rigor e os fazia tomar cada comprimido necessário para seu tratamento. Sempre que podia, ouvia um pouco mais de suas histórias, se envolvia com elas, lhe motivavam, lhe comoviam, lhe ensinavam. Dessa vez pegou uma gota de pena, era a vez daquele jovem, que sofreria em breve uma dose a mais do que provavelmente já carregava. Levou-lhe um pequeno copo d'água e seus comprimidos laranjas... mas sabia que sua dor seria outra.


Lilás: Finalmente abriu os olhos sem ter neblina à sua frente ou tontura, observou em volta, estava num hospital, acamado entre tantos outros. Já havia esquecido da perna, uma enfermeira veio lhe dar pílulas laranjas, tomou-as sem reclamar. Uma senhora veio em sua direção, usava um jaleco alvo, um instrumento de borracha sobre os ombros, se aproximou, se apresentou, era sua médica, estava cuidando de seu caso. Sequer entendia metade do que ela lhe falava, observava perdido uma flor lilás pendurada em seu colar, era de tecido ou palha, fina como uma rosa, bem trabalhada... se perdeu por dentre suas pétalas, até que finalmente fora acordado por palavras que doeram fundo dentro de si: "Não conseguimos salvar a sua perna..."

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