
Este é um relato velho, fruto de lembranças de uma vida que mesmo curta pôde presenciar certos fatos que muitos seculares jamais sonharam. Não me gabo de nada, não escrevi tal destino a mim mesmo, sequer poderia... ou se pudesse, certamente não o faria! Minhas memórias não passam de um quebra-cabeças de peças faltantes, não recordo sequer de parte de minha infância. Para mim, a vida começou aos 13 anos... no meu primeiro contato com as trevas...
Eu vagava sozinho na praia, era noite de lua crescente, não fugia de nada, era apenas um velho costume. Podia muito bem estar com minha família adotiva, eram ótimas pessoas, um casal de pais carinhosos e um irmão com quase a minha idade, que se mostrava um bom amigo. Todavia, não me sentia parte daquilo embora gostasse muito deles. Sempre foram abertos quanto a questão da adoção, eu havia sido encontrado imundo e nu, andando sem rumo nas dunas próximas a stella maris, embora tivesse já 6 anos não pronunciava uma palavra sequer, como se estivesse aéreo. Acabei sendo adotado pelo psicólogo que cuidou de mim no hospital, os sete anos seguinte passaram como uma névoa.
A areia fria sob meus pés, a brisa fresca da noite tocando meu rosto e a grande lua crescente iluminava o caminho. O mundo era tão mais misterioso e belo à noite. Senti algo diferente naquela noite, a caminhada se transformou em corrida, o coração acelerava e batia forte como um tambor, havia algo por perto e me seguia, eu corri cada vez mais rápido, as roupas foram ficando pequenas, meu corpo queimava por dentro e o sangue parecia ferver. Parecia que algo dentro de mim estava acordando.
A paisagem passava como um borrão, num instante eu andava calmamente, noutro estava correndo, fugindo de algo desconhecido e meu corpo era bombardeado por uma mistura explosiva de sensações. O ar entrava frio e salgado nos meus pulmões, rápido o suficiente para arder a garganta, as pernas corriam sozinhas, os músculos queimavam, foi quando a dor surgiu! Rolei e caí no chão, me contorcendo, arfava forte e ouvia os estalos dentro do meu próprio ser, um sentimento que me parecia estranho e conhecido ao mesmo tempo me inundava, meus sentidos iam se ampliando, conseguia ouvir os insetos da noite sussurrando, cheirar a água fresca dentro dos cocos no alto dos coqueiros, a aspereza da areia grudando em meus pêlos... pêlos? Eu estava envolto como um casaco de peles, minhas mãos e pés se fizeram em patas poderosas com garras afiadas amarelas, algo subiu pela minha garganta com fúrias... foi meu primeiro uivo, nunca senti tamanha liberdade e vivacidade na vida.
Consegui me recompor, senti cheiros, havia um grupo próximo, ouvia seus corações batendo à distância, mas outra coisa chamava minha atenção... não possuía cheiro, não emitia sons ou podia vê-la, mas a sentia por perto. O medo e a fúria tomavam conta de mim, como aquilo podia se aproximar sem que eu pudesse ver e o que poderia fazer? Como poderia me defender? Instintivamente olhei para a grande lua, praticamente supliquei por alguma ajuda, como um filho precisando da mãe. Senti meu olhos queimarem por dentro, apertei-os fechados sentindo a dor passar, quando os abri o mundo era outro, tudo parecia mesclado em tons de cor e cinza sombrio, piscava distorcido. Foi quando percebi a criatura...
Era como uma escultura de dor e fúria, pareci uma massa retorcida e negra, recoberta de arame farpado, olhos sangrantes e argolas de metal penduradas, não possuía pés, eram patas como um caranguejo desajeitado e disforme. Nem os pesadelos de esquizofrênicos torturados conseguiriam produzir algo tão repulsivo e hediondo. Sentia agora seu cheiro, como vinagre estragado, cobre sujo e feridas infectadas, uma mistura pútrida que me provocou vômitos na hora. A vi se aproximar lenta, não fazia uma marca sequer na areia fina, como se não estivesse realmente ali.
Paralisado! O terror circulava gélido nas minhas veias, o gosto amargo do vômito queimava minha garganta, eu não consegui fazer nada, apenas tremia enquanto ela se aproximava. Foi quando o vi, era como um lobo gigantesco, de pelagem prateada, com uma tira de couro trançada na pata dianteira direita, tinha grandes presas amarelas, mas emitiam um brilho estranho, assim como suas garras, o vi saltar sobre a criatura e a estraçalhar como se fosse uma peça de carne estragada, rasgando e vomitando os nacos negros. Tudo começou a girar e ficou escuro...
Acordei sentindo o calor de uma pequena fogueira, deitado na areia branca, levantei rápido e percebi envergonhado minha própria nudez. Havia outros sentado em torno da fogueira, cerca de sete pessoas, entre homens e mulheres, adolescente e até um senhor de idade de cabelos longos, na altura dos ombros, sem camisa... Me viram acordar, um rapaz um pouco mais velho que eu me estendeu uma bermuda jeans surrada e um sorriso, me vesti rápido e sentei-me junto a ele no círculo. Eram todos desconhecidos, mas me senti tão à vontade quanto numa família.
Eu vagava sozinho na praia, era noite de lua crescente, não fugia de nada, era apenas um velho costume. Podia muito bem estar com minha família adotiva, eram ótimas pessoas, um casal de pais carinhosos e um irmão com quase a minha idade, que se mostrava um bom amigo. Todavia, não me sentia parte daquilo embora gostasse muito deles. Sempre foram abertos quanto a questão da adoção, eu havia sido encontrado imundo e nu, andando sem rumo nas dunas próximas a stella maris, embora tivesse já 6 anos não pronunciava uma palavra sequer, como se estivesse aéreo. Acabei sendo adotado pelo psicólogo que cuidou de mim no hospital, os sete anos seguinte passaram como uma névoa.
A areia fria sob meus pés, a brisa fresca da noite tocando meu rosto e a grande lua crescente iluminava o caminho. O mundo era tão mais misterioso e belo à noite. Senti algo diferente naquela noite, a caminhada se transformou em corrida, o coração acelerava e batia forte como um tambor, havia algo por perto e me seguia, eu corri cada vez mais rápido, as roupas foram ficando pequenas, meu corpo queimava por dentro e o sangue parecia ferver. Parecia que algo dentro de mim estava acordando.
A paisagem passava como um borrão, num instante eu andava calmamente, noutro estava correndo, fugindo de algo desconhecido e meu corpo era bombardeado por uma mistura explosiva de sensações. O ar entrava frio e salgado nos meus pulmões, rápido o suficiente para arder a garganta, as pernas corriam sozinhas, os músculos queimavam, foi quando a dor surgiu! Rolei e caí no chão, me contorcendo, arfava forte e ouvia os estalos dentro do meu próprio ser, um sentimento que me parecia estranho e conhecido ao mesmo tempo me inundava, meus sentidos iam se ampliando, conseguia ouvir os insetos da noite sussurrando, cheirar a água fresca dentro dos cocos no alto dos coqueiros, a aspereza da areia grudando em meus pêlos... pêlos? Eu estava envolto como um casaco de peles, minhas mãos e pés se fizeram em patas poderosas com garras afiadas amarelas, algo subiu pela minha garganta com fúrias... foi meu primeiro uivo, nunca senti tamanha liberdade e vivacidade na vida.
Consegui me recompor, senti cheiros, havia um grupo próximo, ouvia seus corações batendo à distância, mas outra coisa chamava minha atenção... não possuía cheiro, não emitia sons ou podia vê-la, mas a sentia por perto. O medo e a fúria tomavam conta de mim, como aquilo podia se aproximar sem que eu pudesse ver e o que poderia fazer? Como poderia me defender? Instintivamente olhei para a grande lua, praticamente supliquei por alguma ajuda, como um filho precisando da mãe. Senti meu olhos queimarem por dentro, apertei-os fechados sentindo a dor passar, quando os abri o mundo era outro, tudo parecia mesclado em tons de cor e cinza sombrio, piscava distorcido. Foi quando percebi a criatura...
Era como uma escultura de dor e fúria, pareci uma massa retorcida e negra, recoberta de arame farpado, olhos sangrantes e argolas de metal penduradas, não possuía pés, eram patas como um caranguejo desajeitado e disforme. Nem os pesadelos de esquizofrênicos torturados conseguiriam produzir algo tão repulsivo e hediondo. Sentia agora seu cheiro, como vinagre estragado, cobre sujo e feridas infectadas, uma mistura pútrida que me provocou vômitos na hora. A vi se aproximar lenta, não fazia uma marca sequer na areia fina, como se não estivesse realmente ali.
Paralisado! O terror circulava gélido nas minhas veias, o gosto amargo do vômito queimava minha garganta, eu não consegui fazer nada, apenas tremia enquanto ela se aproximava. Foi quando o vi, era como um lobo gigantesco, de pelagem prateada, com uma tira de couro trançada na pata dianteira direita, tinha grandes presas amarelas, mas emitiam um brilho estranho, assim como suas garras, o vi saltar sobre a criatura e a estraçalhar como se fosse uma peça de carne estragada, rasgando e vomitando os nacos negros. Tudo começou a girar e ficou escuro...
Acordei sentindo o calor de uma pequena fogueira, deitado na areia branca, levantei rápido e percebi envergonhado minha própria nudez. Havia outros sentado em torno da fogueira, cerca de sete pessoas, entre homens e mulheres, adolescente e até um senhor de idade de cabelos longos, na altura dos ombros, sem camisa... Me viram acordar, um rapaz um pouco mais velho que eu me estendeu uma bermuda jeans surrada e um sorriso, me vesti rápido e sentei-me junto a ele no círculo. Eram todos desconhecidos, mas me senti tão à vontade quanto numa família.
Um comentário:
Grande texto, B1ue, vulgo Ed! Vc não tem idéia de como ajudará para construir mais a parte do segundo grupo de lobisomens do nosso rpg.
Será a criatura que te atacou um metamorfo?
Em breve veremos...
Gostei da última parte da fogueira, bem parecido com uma das imagens do livro dos urathas.
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